Crítica: Elymar Santos, um canto a vida; um abraço a alma. 40 anos de Elymar!

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A força de um intérprete também se mede pela capacidade de fazer uma canção conhecida voltar a emocionar quem a escuta. Foi nesse encontro entre voz, repertório e memória que Elymar Santos sustentou “Estrela Luminosa”, apresentado no domingo, 1º de novembro, no Tokio Marine Hall, em São Paulo. Em cerca de três horas, o cantor celebrou quatro décadas de carreira e reafirmou seu domínio de uma arte em que cantar e conversar com a plateia são partes do mesmo ofício.
No Dia de Todos os Santos, um Santos subiu ao palco para celebrar a vida que construiu na música. Às 21h30, anunciou aos presentes que o espetáculo tinha hora para começar, mas nenhuma previsão para terminar. A frase estabeleceu o tom de uma apresentação marcada pela entrega e pela proximidade com o público.
O principal mérito da noite esteve na combinação de presença cênica e intensidade interpretativa. Elymar compreende o papel do gesto, da palavra entre as músicas e da participação da plateia na construção de um show. Seu carisma deu continuidade à apresentação, ligando as canções a episódios pessoais e homenagens.
Em diferentes momentos, o canto coletivo e a emoção dos espectadores revelaram como aquele repertório permanece ligado à vida de quem o acompanha. Bastavam os primeiros versos para que lembranças encontrassem voz. Do palco à plateia, estabeleceu-se uma troca que ajudou a sustentar a longa apresentação.
As homenagens a Angela Maria, a eterna Sapoti, e a Cauby Peixoto situaram o espetáculo numa tradição brasileira de grandes intérpretes, marcada pela intensidade expressiva e pela comunicação direta. As lembranças de Wando, Gilberto Gil e Caetano Veloso ampliaram esse percurso. Ao reconhecer essas referências, Elymar também apresentou ao público parte de sua formação afetiva e musical.
Um show retrospectivo traz o desafio de equilibrar as homenagens com a identidade de quem está em cena. Naquela noite, a personalidade de Elymar funcionou como elo. A unidade vinha de sua maneira de conduzir o espetáculo e de estabelecer uma relação próxima com os espectadores.
Essa dimensão ganhou força quando o cantor explicou que completara 40 anos de carreira no ano anterior, mas não estava bem para comemorar. A celebração precisava acontecer, afirmou, porque aqueles anos representavam sua história, sua vida e sua presença na música popular brasileira.
A declaração deu profundidade ao que se via no palco. Havia orgulho pelo caminho percorrido, mas também a emoção de poder voltar a celebrá-lo diante de quem o acompanhou. O público respondia com aplausos, vozes e atenção.
A participação de Moacyr Franco foi um dos pontos altos da apresentação. Ao lado de Elymar, o artista revisitou canções de sua trajetória em um encontro marcado pela cumplicidade e pela capacidade de emocionar.
Sua presença acrescentou ao espetáculo o peso de outra história dedicada à música. O interesse daquele momento estava tanto nas canções quanto na maneira como os dois dividiam o palco. Havia prazer no encontro, e essa disposição chegava à plateia.
Ao final, os aplausos em pé e os pedidos de bis prolongaram a despedida. Depois de cerca de três horas, o público ainda queria mais. Elymar havia feito da celebração de sua carreira uma experiência compartilhada, sustentada pela voz, pela presença e pelo vínculo com seus ouvintes.
Para mim, porém, aquela noite guardava ainda outro significado.
Gentleman carioca
Era início da madrugada da última quarta-feira quando recebi uma ligação de Elymar Santos. Do outro lado da linha, um convite especial: ele queria minha presença no show em comemoração aos seus 40 anos de carreira.
A surpresa logo deu lugar ao carinho. Durante a conversa, percebi que ele guardava lembranças de um encontro que também ocupa um lugar especial na minha memória.
Voltei a 2019, quando conheci mais de perto sua generosidade. Naquele ano, Elymar aceitou o convite do saudoso empresário Waldemar, ex-marido da eterna Sapoti, Angela Maria, e figura experiente do show business das décadas de 1970, 1980 e 1990, para uma apresentação no Bar do Nelson.
Comandada pela empresária Lilian Gonçalves, a casa é um dos pontos de encontro da boemia paulistana. Naquela ocasião, recebeu uma demonstração de amizade: Elymar presenteou Waldemar com um show. Hoje, gosto de pensar que proporcionou ao amigo a oportunidade de reviver um pouco da emoção de suas antigas grandes produções.
A apresentação foi fantástica. Mesmo sem um camarim que lhe garantisse privacidade, Elymar se acomodou às condições da casa. Pediu apenas um espaço reservado para se concentrar e um bom uísque de 12 anos para relaxar. Depois, entregou-se ao público, que lotou o bar e o recebeu com aplausos.
Na manhã daquela sexta-feira, saímos para comprar novos figurinos. Pelas lojas do Bom Retiro, caminhávamos eu, Elymar e a saudosa Mana, sua fiel amiga e companheira de viagens. Entre escolhas de roupas, conversas e risadas, o tempo passou depressa — tanto que a possibilidade de perderem o voo começou a nos preocupar.
Ao me ligar agora, Elymar trouxe de volta a delicadeza daquele convívio. Lembrei das compras, das brincadeiras e de um gesto que ainda me emociona. Ao final do passeio, Mana me chamou de lado para dizer que ele queria me presentear pela recepção e pela atenção que eu havia dedicado aos dois.
Ganhei um lindo colete e um blazer que o próprio Elymar fez questão de apontar como sendo a minha cara. Foram essas as peças que escolhi para acompanhá-lo nesta noite de festa. Vesti também a lembrança daquele encontro.

Por isso, dedico esta noite de música e emoção ao velho rabugento e grande amigo Waldemar, que tanto me ensinou e me apresentou a Elymar. E à querida Mana, com quem dividi canções, aplausos e sorrisos, durante seu aplaudido show, cuja ausência me fez doer, por nela eu me lembrar.
Enquanto Elymar cantava, encontrei um pouco dos dois nas minhas lembranças. Viva vocês, Waldemar e Mana. Nesta noite de um reencontro, revisistei minhas memórias e tenho certeza qeue esta festa também foi de vocês.
No camarim, após a truculencia do segurança, minha amiga Ana Kalynne me resgatou ao chamar a querida Lu Barbosa (profissional que tantas pautas me fez trabalhar), liberou-me para um rápido abraço e em poucas palavras lhe parabenizar.
E bravo, bravíssimo, Elymar. Pela voz que continua a emocionar e pela delicadeza dos gestos que o tempo não apaga.

