Alex Sotero: O chef que trocou as estrelas pelo fogão

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Antes de descobrir sabores, Alex Sotero queria entender o universo. O chef que hoje acumula quase três décadas de experiência em cozinhas no Brasil e no exterior iniciou sua trajetória acadêmica na Física, com estudos voltados à Astrofísica. Em uma família de forte tradição acadêmica, a ciência parecia ser o caminho natural. Mas havia outra linguagem que o acompanhava desde cedo: a cozinha.
A relação com os alimentos nasceu dentro de casa, especialmente ao lado do avô materno, um apaixonado por gastronomia, feiras livres e pelos encontros que aconteciam ao redor da mesa. Foi nesse ambiente, entre ingredientes, histórias e convivência, que Sotero desenvolveu uma percepção que mais tarde se tornaria essencial em sua carreira: comida não é apenas alimento, mas também memória e conexão.
A mudança de rota aconteceu de maneira inesperada. Em São Paulo, enquanto cursava a universidade, trabalhava como garçom para ajudar a financiar os estudos. Em 2000, recebeu um convite para integrar a cozinha do extinto Red Restaurante, na região da Avenida Paulista. A experiência, que inicialmente parecia apenas uma oportunidade profissional, revelou uma nova possibilidade de futuro.
“Foi quando percebi que a cozinha reunia tudo aquilo que me interessava: pesquisa, técnica, criatividade e a possibilidade de transformar conhecimento em algo que pudesse ser compartilhado”, resume o chef ao lembrar do início da carreira.
A decisão de trocar a Física pela gastronomia não significou abandonar a ciência. Pelo contrário. Ao longo dos anos, Sotero incorporou o pensamento investigativo à sua maneira de cozinhar. Em 2002, ingressou no curso de Tecnologia em Gastronomia do Senac e, para custear a formação, trabalhou em um navio da Costa Cruzeiros. A experiência ampliou sua visão sobre diferentes culturas culinárias e mostrou que a cozinha também poderia ser uma forma de compreender o mundo.

Em 2004, veio uma das etapas mais importantes de sua formação: a seleção para o programa de aperfeiçoamento culinário do Greenbrier Resort, nos Estados Unidos. Durante três anos, mergulhou em uma rotina de treinamento técnico e pesquisa gastronômica. Foi também nesse período que atuou como cientista culinário ao lado do chef José Andrés, aproximando definitivamente os dois universos que sempre fizeram parte de sua história: ciência e cozinha.
De volta ao Brasil, em 2008, integrou a equipe da chef Helena Rizzo. Mais do que uma experiência técnica, o período marcou uma transformação em sua visão sobre liderança. Aprendeu que uma grande cozinha não se constrói apenas com bons pratos, mas com pessoas, colaboração e respeito.
O primeiro grande desafio como comandante de cozinha veio em Aracaju. Longe do eixo gastronômico tradicional, encontrou no Nordeste um território de descobertas. Passou a pesquisar ingredientes locais, biodiversidade, sazonalidade, plantas e técnicas ligadas aos produtores da região. Foi ali que sua cozinha ganhou uma identidade mais brasileira e uma relação mais profunda com a origem dos alimentos.
A carreira internacional se consolidou após a vitória no Global Chef Challenge, competição que ampliou sua projeção e abriu portas para novos projetos. Como consultor, participou da implantação de restaurantes e estruturação de operações em países como Canadá, Rússia e mercados do Oriente Médio, acumulando experiências em diferentes culturas gastronômicas.
Em 2019, tornou-se conhecido pelo público nacional ao participar do reality Top Chef Brasil. No ano seguinte, assumiu um novo desafio: implantar um restaurante na Arábia Saudita. O que seria uma missão temporária acabou se transformando em uma permanência superior a um ano, impulsionada pelos desafios trazidos pela pandemia de Covid-19. Depois, participou da implantação de restaurantes no Catar durante o período que antecedeu a Copa do Mundo FIFA.
Aos quase 30 anos de carreira, Alex Sotero reúne uma trajetória pouco linear. Foi estudante de Física, garçom, cozinheiro, pesquisador, cientista culinário, consultor e gestor. Passou por diferentes cozinhas e culturas, mas manteve uma mesma inquietação: compreender o ingrediente e revelar suas possibilidades.
Agora, esse percurso chega a um novo capítulo com o Outís Restaurante, seu primeiro projeto autoral. A abertura da casa representa a passagem de quem dedicou anos a construir projetos para outros para aquele que finalmente apresenta sua própria visão de gastronomia.

No Outís , inaugurado para o público no último dia 23, Sotero reúne as diferentes camadas de sua história: o pensamento científico, a memória afetiva da infância, a experiência internacional e o respeito pela cultura alimentar brasileira. Sua proposta não é apenas servir pratos, mas criar experiências em que técnica, pesquisa e emoção estejam presentes.
Para o chef, cozinhar continua sendo uma forma de investigação. A diferença é que, depois de anos tentando compreender o universo, sua pesquisa agora acontece em outro território: aquele onde ingredientes, pessoas e histórias se encontram à mesa.

